16.11.13

Dúvida

Entro no amor como em casa.
Há dias em que não sei se quero entrar em casa. Deixei a chave na porta. Tirei os sapatos. Pousei a mochila. Vem hoje mais carregada do que o costume. Trago peso nos ombros.
Há dias em que não sei se quero entrar em casa, sentar-me no sofá, falar contigo. Há dias em que parece que dominamos línguas diferentes com as mesmas palavras. O problema é sintaxe, semântica e fonética. Tudo ao mesmo tempo. Incompreendemo-nos. Calamo-nos. Desistimos. Se o amor é esta pedra de toneladas que nos calca a cabeça nos ombros, não dá ordem para os braços se erguerem e deixa as pernas bambas, é muito injusto. Enganaram-me. Ele devia ser libertador. Mas castra-nos. Deixa-nos no chão. Põe-nos a falar línguas diferentes. Não nos deixa aprender uma nova.
Há dias em que não sei se quero entrar em casa. Deixaste outra vez as conversas desarrumadas, as queixas caídas à porta da casa de banho. O ego no meio da sala.
Há dias em que não sei se quero entrar em casa, tropeçar em ti, cair desamparada no sofá, desconversar.
Assim é o amor: mortal e navegável.
Assim somos nós. E eu não sei se quero entrar em casa. 

20.7.13

Reclamação

O amor estraga tudo: as noites bem dormidas, a nossa racionalidade, a felicidade de estarmos sozinhos. O amor estraga tudo. Prende-nos à mensagem de bom dia, leva um bocado de nós para longe, deixa-nos atordoados. O amor é reles, mau, egoísta e presunçoso. Quer tudo para ele e não deixa nada para nós. 

19.7.13

Insónia

Já estás a dormir.
Eu não consigo.
(A noite vai correr.)


Não quero que te vás embora.

14.7.13

Consulta

Tenho frio. E depois calor. E depois frio. E doem-me as pernas. E os braços. E as costas. Também a garganta. Também os ouvidos. Tudo isto piorou depois de teres ido embora. Desconfio de que deves ter algum efeito analgésico. Não contes aos médicos que tens estes poderes. Eu também prometo guardar segredo. Não quero que te receitem a mais ninguém.


Maio de 2012

5.7.13

Combate

Ando a contar os dias que não quero que passem, porque não vou querer contar os dias que vão faltar.
A luta contra a saudade e o egoísmo.

Faço força para tentar manter-me de pé. Esforço-me para subjugar o adversário.

Perdi(-me).

(Um dia conto-te o quanto isto fere por dentro.)




Estou sempre a ir ao tapete.

26.6.13

Lanche

Matas-me a fome. Dás-me mais. Ficamos com mais. Somos assim: satisfeitos e insaciáveis.

18.6.13

Cofre

O teu colo é o lugar mais seguro para guardar as minhas palavras.
Não te mexas.

3.6.13

25.5.13

Perspectiva

— Troca comigo.
— Porque é que tenho de ser sempre eu a ficar por baixo?
— Porque é que tenho de ser sempre eu a morrer de amor?

14.5.13

As tuas

Mesmo que não acredites, as palavras mais bonitas são as tuas.
Não fazes malabarismos, não tens pretensões.
O nosso amor está no teu abraço.


Imitação III

A felicidade é morder-te.

12.5.13

Boleia

Apanhaste-me a meio de uma viagem, desanimada por pensar que não tinha sido feita para viver a dois. Primeiro sem medos. Só um: o de voltar a cometer o erro. Depois, vários. Cada vez mais, porque o amor assusta quando aparece assim sem avisar. Agora, que um caminho está prestes a terminar, vamos continuar o nosso. E é irremediável. Já só quero a tua boleia. Não quero saber se a gasolina está cara, se já tenho carro, se tenho de ser eu a conduzir.
Dividimos os gastos, multiplicamos os beijinhos. Negócio fechado?

4.5.13

Surto

outro dia perdi-te que estranho ia jurar que te tinha arrumado naquele canto da sala de estar às vezes não sei bem o que acontece provavelmente fui só eu a esquecer-me de onde te pus na verdade é sempre o mesmo já desisti de contar às vezes depois quanto te acho lá estás tu cheio de pó sem conseguir respirar a minha mãe tem razão devia arrumar o quarto mais vezes desculpa se estás com falta de ar mas eu já estou cansada de procurar se admitisses que foges de mim era mais fácil eu não tinha culpa nem amor e as pessoas que não têm amor habituam-se a não ter nada nem culpa os dias cinzentos já não são uma chatice porque é a única coisa que conhecem e se eu não sentisse falta do sol nunca andava angustiada mas assim volta e meia ele desaparece e eu não sei de ti entro no abismo da inquietude canso-me e sento-me no canto onde acho que te guardei a chorar

26.4.13

Claquete

anda lá escolhe o filme
não escolhe tu
é sempre a mesma merda
ficamos nisto horas até que eu amue e tu me digas que já não aguentas este meu feitio
escolhe tu
não importa se eu adormecer mas é certo que tu vais adormecer se eu puser um filme francês com o garrel ou te tentar encantar com o cinema paraíso
que exagero
no primeiro filme que eu escolhi tu adormeceste e olha que tinha o matt damon e o robin williams
cala-te e mostra o trailer
estás a morrer de tédio confessa o filme tem música que faz chorar e tu já estás é a ver o filme todo
isto lembrou-me aquela série esta olha aqui um bocadinho
estás a fazer tempo para ficar tarde
vamos ter sono e adormecer se virmos hoje o filme que escolheste importas-te que fique para amanhã
não mas eu sei que bem posso enfiar as minhas escolhas na gaveta
não sejas assim
o que vamos ver hoje
podemos ver o meu ainda é cedo
não estou no mood para esse tipo de filmes se não te importares
o que vamos ver hoje
não sei escolhe tu
também nunca sabes nada não posso ser sempre eu a decidir tudo sabes
o que queres dizer com isso
não vais amuar outra vez pois não sabes que isso começa a ser insuportável
vê o que está a dar na televisão







vou sempre gostar mais dos teus super-heróis do que tu dos meus super-sentimentalismos




e o que vamos ver hoje

13.4.13

25.3.13

Papel

Sonhava com o dia em que chegasse a casa e tivesses deixado em cima da mesa um guardanapo com o meu poema preferido escrito. 
Aquelas merdas maricas de quem diz gostar de palavras. 
A verdade é que nem num pedaço de rolo de cozinha, nem em papel higiénico. Parece que também não há folhas brancas e os jornais já foram para a reciclagem.
"Parece-me bonito, mas não percebi." 
Nem musa, nem poetisa. 
Sempre foste muito poupado para desperdiçar papel.

17.3.13

Convicção

Não pode haver pretensões de literatura quando se escreve com o coração nos dedos. 

Domingo

"Gosto da minha casa porque tu já lá estiveste". Lembras-te? Gosto do meu quarto, porque já cá estiveste. E gosto sempre um bocadinho mais, de cada vez que repetes as visitas. As minhas mantas estão mais quentes, a minha cama mais sorridente e a minha almofada mais irresistível porque tudo tem o teu cheiro. Aqui não sonhamos com o futuro, como no livro, mas divertimo-nos com o desafio de namorar enquanto esperamos que ninguém meta a chave à porta entretanto. Hoje, não estou amuada como a mulher da história do Alvim. Dobro o lábio inferior a fingir tristeza, mas tu resolves as minhas falsas inquietações. O meu pijama gosta de ti e os domingos são muito mais felizes assim, connosco a comer gelado de café e a ver uma série que não sabes se vou gostar. 

Achado

Descobrir-te foi descobrir o amor.

12.3.13

Fantasmas

"Não penses nisso". E eu enlouquecia de raiva. O cérebro não desliga como a luz da mesa de cabeceira que deixo acesa de propósito. O passado vem à superfície todas as noites e assusta-me como os fantasmas que me assustavam quando era pequena. Agora eles não estão à janela, nem são só sombras. São de carne e osso. São mulheres que usam saltos altos, falam muito e pintam a boca de vermelho. E andam à nossa volta. É a materialização dos monstros. Que eu não quero contar. É a velha com a verruga e as rodas dentadas que me faziam acordar com espasmos. Uma sensação parecida àquela que tenho cada vez que sinto que me vão trocar o nome. Os fantasmas e os monstros podem não ser só imaginários. Eu posso ser só mais uma. E já estou muito crescida para dormir no meio dos meus pais até o medo ir embora. 

8.3.13

Palavra

Acho que o meu coração deu um solavanco quando o disseste pela primeira vez. O teu, acelerado, como se tivesses acabado de dar uma corrida para fugir da chuva. Lá fora, muitas casas, que deixamos de ver, por instantes, pelos vidros embaciados. Ouvido no peito. O teu. As sensações a confluírem num silêncio. O meu. Há muito mais que sabia que não podia ser outra coisa que não aquilo. Estava cheia de medo. As palavras nunca devem ser só palavras. E não foram. Naquela noite. E nas outras que vieram. 

1.3.13

Escuro

Tenho medo de quando deixarmos de fazer sentido. De quando os teus planos, os teus sonhos, o teu futuro fizerem sentido só contigo. De quando a minha infantilidade, a minha inexperiência e a minha ingenuidade já não tiverem encanto. Então, eu vou tirar as tuas fotografias dos meus poemas, desligar o som das nossas músicas, borrar a tinta das cartas com as lágrimas. As mesmas que teimam em inundar-me os olhos e desfazer o rímel que nunca sei pôr nas pestanas nas noites em que adormeço com este medo. Este que eu não sei resolver como resolvo o que tenho do escuro. Não sei qual é a luz que posso deixar acesa. 

11.2.13

Platonismo

Hoje procurei-te em todas as ruas e só consegui encontrar-te quando tropecei na esquina do teu sorriso.
Agosto, 2009.

Egoísmo

Não gosto de que a tua ausência se tenha tornado num hábito.