16.11.13

Dúvida

Entro no amor como em casa.
Há dias em que não sei se quero entrar em casa. Deixei a chave na porta. Tirei os sapatos. Pousei a mochila. Vem hoje mais carregada do que o costume. Trago peso nos ombros.
Há dias em que não sei se quero entrar em casa, sentar-me no sofá, falar contigo. Há dias em que parece que dominamos línguas diferentes com as mesmas palavras. O problema é sintaxe, semântica e fonética. Tudo ao mesmo tempo. Incompreendemo-nos. Calamo-nos. Desistimos. Se o amor é esta pedra de toneladas que nos calca a cabeça nos ombros, não dá ordem para os braços se erguerem e deixa as pernas bambas, é muito injusto. Enganaram-me. Ele devia ser libertador. Mas castra-nos. Deixa-nos no chão. Põe-nos a falar línguas diferentes. Não nos deixa aprender uma nova.
Há dias em que não sei se quero entrar em casa. Deixaste outra vez as conversas desarrumadas, as queixas caídas à porta da casa de banho. O ego no meio da sala.
Há dias em que não sei se quero entrar em casa, tropeçar em ti, cair desamparada no sofá, desconversar.
Assim é o amor: mortal e navegável.
Assim somos nós. E eu não sei se quero entrar em casa. 

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