2.7.18

Fim

Quando chegaste, desarrumaste tudo e depressa colocaste tudo no devido lugar.
Afinal, era possível.
Eu era tão feliz que chegava a ter medo: de repente, tinha a vida que sempre quis ter, mesmo que durante muito tempo não soubesse, sequer, desse desejo.

A tua cobardia levou-me ao ponto de partida e deixou um rasto de destruição.

(De que serve deixar o amor crescer dentro de nós, se um dia deitam fora tudo aquilo que construímos durante anos com tanta dedicação?)

Esta história não teve um final feliz e eu já não quero escrever mais livros.

Sobra esta casa, que, a partir de hoje, fica quieta para sempre.

17.6.18

Eu

Quando acorda olha para o lado
Se veste bonita pra ninguém
Chora escondida no banheiro
P'ras amigas finge que está bem
Mas eu vejo
Eu vejo

Acha que precisa ser durona
Não dá espaço para a dor passar
Tem um grito preso na garganta
Que não está deixando ela falar
Mas eu ouço
Eu ouço

Quase como que anestesiada
Vai deixando a vida carregar
Ela sentiu mais do que aguentava
Não quer sentir nada nunca mais

Mas eu sinto
Eu sinto

Qualquer um que encontra ela na rua
Vê que alguma coisa se apagou
Ela está ficando diferente
Acho que ninguém a avisou
E eu digo
Eu digo

Poema

Sinceramente julgava já ter o luto
feito, mas não tinha o luto feito
coisíssima nenhuma, tal como
Cesariny diz que Álvaro de Campos
fazia, emociono-me — e não consigo
acabar. Bom, isto não é para levar a sério,
às vezes consigo, mas é preciso
não ter nada que me distraia.

Chamar luto a isto é bem visto,
morre o amor como morre uma pessoa.
Mas depois a vida continua, pois
não é verdade, cheia de gente adaptada
às grandes linhas de actuação dos governos.

in Se As Coisas Não Fossem O Que São, Helder Moura Pereira 

25.5.18

Estrago

Foi a noite mais complicada de que tenho memória.
Demasiada gente à minha volta, estímulos profissionais que exigiam resposta, e eu prestes a desabar o tempo todo.

- Aguenta.

Aquela noite de trabalho ia longa e pareceu uma eternidade até chegar, finalmente, o momento em que pude entrar no carro e ficar sozinha.

- Estás livre.

Solucei o tempo todo. O caminho até casa não teve quilómetros suficientes para tudo aquilo que precisava de exorcizar.

Já no quarto, o ritual antigo repetiu-se: porta fechada, luz apagada, cabeça tapada e choro abafado pela almofada até a cabeça doer, até não conseguir respirar.

- Não tinhas dito que já tinhas ultrapassado essa fase?

Ninguém me avisou. Mesmo que o tivessem feito, desconfio de que não teria acreditado que a dor seria tão grande, profunda e demorada.

É que, quando deixam de nos amar, arrancam-nos um pedaço que não sabemos para onde vai, nem quando volta. (Será que volta?). E nós ficamos sem saber como arrancar do peito um amor tão grande, que, apesar de magoado, insiste em manter-se incólume dentro de nós.

- Será sempre uma luta desigual.

(Não tenho fome. Não quero ver nem conversar com ninguém. Não tenho vontade de trabalhar.)

- Não sabia que um coração partido causava tantos estragos.

(Enquanto isso, o mundo continua a girar, e eu tenho de continuar a fingir que quero comer, que quero conversar, rir, e que as obrigações do trabalho continuam a ser estimulantes e não apenas tarefas rotineiras que faço para me distrair.)

"Se quiseres que alguma coisa mude, vais conseguir mudar."

Viver com o coração partido é viver em solidão. Ninguém mais entende que sofrer não é uma escolha, é uma inevitabilidade.

Só aqueles que também já morreram de amor.

Será que temos mais vidas?




Cidade

Havia uma cidade que era a nossa.

Um dia, numa das visitas que fizemos, comprei um souvenir e combinámos que seria para a nossa futura casa.

Algum tempo mais tarde, caiu sobre mim uma tempestade tão grande que levou embora todos os meus sonhos. A nossa casa foi destruída mesmo antes de ser edificada.

E agora que transformaste a nossa cidade na vossa, o que faço àquele objecto que estava guardado para o nosso ninho? Ofereço-to para decorarem o vosso?

20.5.18

Repulsa

O meu estômago deu três voltas.
A garganta fechou.
A tensão caiu.
Segurei o vómito.
- O que é que aconteceu?
- Vi-o através da lente de outra mulher.

Vazio

Desde que foste embora, houve um lugar à mesa que ficou vazio para sempre.
Houve coisas que nunca mais te pude perguntar.
Queixas que nunca mais te pude fazer.

A passagem do tempo transforma as relações e rouba-nos o direito que um dia tivemos de conhecer a vida do outro.

Para nos protegermos.
Para não nos atacarmos.

Tell me, tell me, although it may pain me, oh pain me to know. Did you smile? Did you kiss? Did you fall? I shall really forgive, if only you tell me all.

(A verdade é que, mesmo que nunca me contes, eu já sei a resposta.)



16.5.18

Morte

A bala que cravaste no meu peito ficou alojada durante muito tempo num local crítico.
Um dia, deslocou-se. Foi fatal.

O meu amor por ti era mais do que um grande amor. Era desmedido de tal forma que não me cabia no corpo.

Feriste-o.

Obriguei-o a morrer.

Foi a última coisa que me ensinaste: que é possível matar um amor que cheguei a acreditar ter vida eterna.


11.4.18

Dor

A casa ficava quieta. Encostava a porta do quarto, metia-me dentro da cama e tapava a cabeça com a roupa.
Chorava copiosamente. Tentava que os soluços não se ouvissem para que ninguém desse conta do tamanho da dor.
A dor era física, também. Sentia facas a trespassar-me o tórax — era o coração a dilacerar.
Falava com Deus e perguntava-Lhe, em jeito de súplica: "isto um dia vai passar, não vai?"
(Naqueles momentos, a vida foge-nos e não há futuro à vista.)

Os meses foram passando.
Às vezes, tinha de fechar a porta outra vez, repetir todos os gestos.
Quando não conseguia esperar pela hora de dormir, refugiava-me no banho. Ou no carro.

Só queria estar sozinha para, finalmente, conseguir pôr para fora aquilo que em todos os momentos do dia não podia nem queria partilhar com ninguém.

Aquela dor era só minha. E eu precisava de aprender a viver com ela para conseguir aprender, depois, a libertar-me dela.

18.3.18

Pergunta-resposta

- E se não for capaz de me entregar outra vez, com medo?
- Descansa. Quando nos apaixonamos, voltamos a pôr-nos a jeito para nos voltarem a pisar o coração.

Enough Thunder

A agulha no disco. Aquele som sujo onde se ouve um crepitar que faz lembrar o fogo que já nos aqueceu a casa. A canção parece que foi escrita de propósito para mim, para que a pudesse ouvir com especial atenção hoje, mais um domingo de manhã sem graça, onde a música me afunda, mas me traz à superfície assim que fico sem ar.

2.2.18

Doença

Penso em ti todas as manhãs, sempre que me deito e, durante o dia, às vezes lembro-me de que consegui não pensar em ti durante umas horas. Tenho cada vez menos fé no tempo. E se ele não curar a puta da doença em que se transformou o meu amor por ti?