31.7.12

Maestro

Chamaste-me e eu soube. A tua voz desceu para os graves. Já só te lia em Clave de Fá. A intensidade do que dizias espelhava-se nos batimentos por minuto da tua respiração. Cada palavra era uma semibreve. Inspiravas em pausas de dois tempos. O teu frasear não oscilava mais do que dois tons e meio. O teu compasso simples. O meu composto. Os meus nervos em falsete. Respirava em stacatto. Se o meu silêncio falasse, escrevia uma partitura inteira só com semifusas. Eu sabia que querias pôr a barra final. E eu só queria que me deixasses escrever uma marca de repetição na pauta. Chamaste-me e eu soube. O maestro foste tu.


(April 13, 2012, 12:42am)


                                                                                                                                                       

Estetoscópio


encosto o meu ouvido ao teu coração

tun tun tun tun

tenho tanto medo de ficar como de ir embora

tun tun

e se vou embora e ele deixa de bater?

tun

e se fico e o sinto parar?


  • (

    May 24, 2012, 4:59pm

    )

  • 27.7.12

    Motor de Busca

    Tentei perguntar de várias maneiras, mas a pesquisa foi sempre inconclusiva. Eu só queria saber como é que sabia se era amor. Advertiram-me: a falha estava nas palavras-chave.

    14.7.12

    Incolor


    Outro dia, tropecei num livro daqueles que estão sempre em promoção no supermercado. Uns que até estão embrulhados em papel cor-de-rosa com brilhantes. São livros que contam histórias sobre o amor. Dizem eles. Eu nunca percebi muito bem o que era isso. Não esses livros baratos, mas o amor. O amor daqueles livros é eterno e cor-de-rosa, tal como o papel onde vêm embrulhados. Mas eu não acredito na eternidade e não gosto de cor-de-rosa. O amor para mim é efémero, tal como nós. E cinzento. O mesmo cinzento da cor teus olhos. 

    13.7.12

    Existencialismo

    Contigo sofro as crises de identidade de um pré-adolescente. Sou uma criança que acha que merece ser tratada como um adulto que sabe que não é.

    11.7.12

    Cuidado

    Às vezes, quase que te chamo amor. Sorte a tua que consigo sempre travar a tempo.

    10.7.12

    Perfume


    Tomo banho, visto-me, ponho perfume. Os pulsos, o pescoço, o cabelo. Saio à rua. Chego, horas depois, a casa. Arrumo a confusão que trouxe lá de fora. Continuo a cheirar a ti. Os pulsos, o pescoço, o cabelo.