Foi a noite mais complicada de que tenho memória.
Demasiada gente à minha volta, estímulos profissionais que exigiam resposta, e eu prestes a desabar o tempo todo.
- Aguenta.
Aquela noite de trabalho ia longa e pareceu uma eternidade até chegar, finalmente, o momento em que pude entrar no carro e ficar sozinha.
- Estás livre.
Solucei o tempo todo. O caminho até casa não teve quilómetros suficientes para tudo aquilo que precisava de exorcizar.
Já no quarto, o ritual antigo repetiu-se: porta fechada, luz apagada, cabeça tapada e choro abafado pela almofada até a cabeça doer, até não conseguir respirar.
- Não tinhas dito que já tinhas ultrapassado essa fase?
Ninguém me avisou. Mesmo que o tivessem feito, desconfio de que não teria acreditado que a dor seria tão grande, profunda e demorada.
É que, quando deixam de nos amar, arrancam-nos um pedaço que não sabemos para onde vai, nem quando volta. (Será que volta?). E nós ficamos sem saber como arrancar do peito um amor tão grande, que, apesar de magoado, insiste em manter-se incólume dentro de nós.
- Será sempre uma luta desigual.
(Não tenho fome. Não quero ver nem conversar com ninguém. Não tenho vontade de trabalhar.)
- Não sabia que um coração partido causava tantos estragos.
(Enquanto isso, o mundo continua a girar, e eu tenho de continuar a fingir que quero comer, que quero conversar, rir, e que as obrigações do trabalho continuam a ser estimulantes e não apenas tarefas rotineiras que faço para me distrair.)
"Se quiseres que alguma coisa mude, vais conseguir mudar."
Viver com o coração partido é viver em solidão. Ninguém mais entende que sofrer não é uma escolha, é uma inevitabilidade.
Só aqueles que também já morreram de amor.
Será que temos mais vidas?
25.5.18
Cidade
Havia uma cidade que era a nossa.
Um dia, numa das visitas que fizemos, comprei um souvenir e combinámos que seria para a nossa futura casa.
Algum tempo mais tarde, caiu sobre mim uma tempestade tão grande que levou embora todos os meus sonhos. A nossa casa foi destruída mesmo antes de ser edificada.
E agora que transformaste a nossa cidade na vossa, o que faço àquele objecto que estava guardado para o nosso ninho? Ofereço-to para decorarem o vosso?
Um dia, numa das visitas que fizemos, comprei um souvenir e combinámos que seria para a nossa futura casa.
Algum tempo mais tarde, caiu sobre mim uma tempestade tão grande que levou embora todos os meus sonhos. A nossa casa foi destruída mesmo antes de ser edificada.
E agora que transformaste a nossa cidade na vossa, o que faço àquele objecto que estava guardado para o nosso ninho? Ofereço-to para decorarem o vosso?
20.5.18
Repulsa
O meu estômago deu três voltas.
A garganta fechou.
A tensão caiu.
Segurei o vómito.
A garganta fechou.
A tensão caiu.
Segurei o vómito.
- O que é que aconteceu?
- Vi-o através da lente de outra mulher.
Vazio
Desde que foste embora, houve um lugar à mesa que ficou vazio para sempre.
Houve coisas que nunca mais te pude perguntar.
Queixas que nunca mais te pude fazer.
A passagem do tempo transforma as relações e rouba-nos o direito que um dia tivemos de conhecer a vida do outro.
Para nos protegermos.
Para não nos atacarmos.
Houve coisas que nunca mais te pude perguntar.
Queixas que nunca mais te pude fazer.
A passagem do tempo transforma as relações e rouba-nos o direito que um dia tivemos de conhecer a vida do outro.
Para nos protegermos.
Para não nos atacarmos.
Tell me, tell me, although it may pain me, oh pain me to know. Did you smile? Did you kiss? Did you fall? I shall really forgive, if only you tell me all.
(A verdade é que, mesmo que nunca me contes, eu já sei a resposta.)
16.5.18
Morte
A bala que cravaste no meu peito ficou alojada durante muito tempo num local crítico.
Um dia, deslocou-se. Foi fatal.
O meu amor por ti era mais do que um grande amor. Era desmedido de tal forma que não me cabia no corpo.
Feriste-o.
Obriguei-o a morrer.
Foi a última coisa que me ensinaste: que é possível matar um amor que cheguei a acreditar ter vida eterna.
Um dia, deslocou-se. Foi fatal.
O meu amor por ti era mais do que um grande amor. Era desmedido de tal forma que não me cabia no corpo.
Feriste-o.
Obriguei-o a morrer.
Foi a última coisa que me ensinaste: que é possível matar um amor que cheguei a acreditar ter vida eterna.
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