A casa ficava quieta. Encostava a porta do quarto, metia-me dentro da cama e tapava a cabeça com a roupa.
Chorava copiosamente. Tentava que os soluços não se ouvissem para que ninguém desse conta do tamanho da dor.
A dor era física, também. Sentia facas a trespassar-me o tórax — era o coração a dilacerar.
Falava com Deus e perguntava-Lhe, em jeito de súplica: "isto um dia vai passar, não vai?"
(Naqueles momentos, a vida foge-nos e não há futuro à vista.)
Os meses foram passando.
Às vezes, tinha de fechar a porta outra vez, repetir todos os gestos.
Quando não conseguia esperar pela hora de dormir, refugiava-me no banho. Ou no carro.
Só queria estar sozinha para, finalmente, conseguir pôr para fora aquilo que em todos os momentos do dia não podia nem queria partilhar com ninguém.
Aquela dor era só minha. E eu precisava de aprender a viver com ela para conseguir aprender, depois, a libertar-me dela.