25.3.13

Papel

Sonhava com o dia em que chegasse a casa e tivesses deixado em cima da mesa um guardanapo com o meu poema preferido escrito. 
Aquelas merdas maricas de quem diz gostar de palavras. 
A verdade é que nem num pedaço de rolo de cozinha, nem em papel higiénico. Parece que também não há folhas brancas e os jornais já foram para a reciclagem.
"Parece-me bonito, mas não percebi." 
Nem musa, nem poetisa. 
Sempre foste muito poupado para desperdiçar papel.

17.3.13

Convicção

Não pode haver pretensões de literatura quando se escreve com o coração nos dedos. 

Domingo

"Gosto da minha casa porque tu já lá estiveste". Lembras-te? Gosto do meu quarto, porque já cá estiveste. E gosto sempre um bocadinho mais, de cada vez que repetes as visitas. As minhas mantas estão mais quentes, a minha cama mais sorridente e a minha almofada mais irresistível porque tudo tem o teu cheiro. Aqui não sonhamos com o futuro, como no livro, mas divertimo-nos com o desafio de namorar enquanto esperamos que ninguém meta a chave à porta entretanto. Hoje, não estou amuada como a mulher da história do Alvim. Dobro o lábio inferior a fingir tristeza, mas tu resolves as minhas falsas inquietações. O meu pijama gosta de ti e os domingos são muito mais felizes assim, connosco a comer gelado de café e a ver uma série que não sabes se vou gostar. 

Achado

Descobrir-te foi descobrir o amor.

12.3.13

Fantasmas

"Não penses nisso". E eu enlouquecia de raiva. O cérebro não desliga como a luz da mesa de cabeceira que deixo acesa de propósito. O passado vem à superfície todas as noites e assusta-me como os fantasmas que me assustavam quando era pequena. Agora eles não estão à janela, nem são só sombras. São de carne e osso. São mulheres que usam saltos altos, falam muito e pintam a boca de vermelho. E andam à nossa volta. É a materialização dos monstros. Que eu não quero contar. É a velha com a verruga e as rodas dentadas que me faziam acordar com espasmos. Uma sensação parecida àquela que tenho cada vez que sinto que me vão trocar o nome. Os fantasmas e os monstros podem não ser só imaginários. Eu posso ser só mais uma. E já estou muito crescida para dormir no meio dos meus pais até o medo ir embora. 

8.3.13

Palavra

Acho que o meu coração deu um solavanco quando o disseste pela primeira vez. O teu, acelerado, como se tivesses acabado de dar uma corrida para fugir da chuva. Lá fora, muitas casas, que deixamos de ver, por instantes, pelos vidros embaciados. Ouvido no peito. O teu. As sensações a confluírem num silêncio. O meu. Há muito mais que sabia que não podia ser outra coisa que não aquilo. Estava cheia de medo. As palavras nunca devem ser só palavras. E não foram. Naquela noite. E nas outras que vieram. 

1.3.13

Escuro

Tenho medo de quando deixarmos de fazer sentido. De quando os teus planos, os teus sonhos, o teu futuro fizerem sentido só contigo. De quando a minha infantilidade, a minha inexperiência e a minha ingenuidade já não tiverem encanto. Então, eu vou tirar as tuas fotografias dos meus poemas, desligar o som das nossas músicas, borrar a tinta das cartas com as lágrimas. As mesmas que teimam em inundar-me os olhos e desfazer o rímel que nunca sei pôr nas pestanas nas noites em que adormeço com este medo. Este que eu não sei resolver como resolvo o que tenho do escuro. Não sei qual é a luz que posso deixar acesa.