24.12.12

Início

Não sei de palavras para te dizer que é o fim. Talvez use um poema do Eugénio de Andrade, aquele onde ele diz que as palavras estão gastas. 
Prometo-te que deixo tudo arrumado. O lençol da cama bem esticado, a louça no escorredor, a manta cor-de-abóbora dobrada no braço do sofá.
Cansámo-nos.
Eu bem te disse um dia que remar só de um lado não ia dar bom resultado. 
"Andámos em voltas rectas na mesma esfera". "As palavras estão gastas". Já nada é meu.
Deixámos o barco em contra-mão e fizemos da partida a nossa meta.
Eu não sei ser feliz e tu não sabes falar de amor.
"Gastámos tudo menos o silêncio."

9.12.12

Nome

Um dia, naquela que será a página de dedicatórias do meu livro, estará apenas o teu nome. O teu nome numa página despida. Tal como os nossos corpos nas manhãs de domingo.

7.12.12

Assalto

Diz-me lá se no silêncio da noite, enquanto as pernas e os braços se entrecruzam debaixo dos lençóis quentes se não pensaste afinal no que estamos a fazer
Diz-me lá
Fazemos amor sem pressa, outras com a urgência dos amantes. O que estamos nós a fazer
— Diz-me
Já só ouço o som da nossa respiração cada vez mais espaçada, porque estamos a adormecer entre pernas e braços entretecidos. Os últimos momentos antes de o sono desfazer a nossa laçada.
— Diz-me lá
Perguntas
Acho-me reprovável. Afinal o que é isto de ter ciúmes? Um dia, alguém pode roubar-te o coração e eu não vou poder fazer nada para evitar o assalto. A polícia não a vai prender, e eu vou desistir da queixa.
Nunca sabemos o espaço que deixamos por preencher. 

2.12.12

Guerra

A tragédia começa no momento em que pensar na ausência faz ferida. 
Estou num campo de batalha durante um conflito armado. Dei o corpo às balas e tenho a pele cravada de cicatrizes. O chumbo já me furou a carne e eu ainda nem sequer fui atingida.
Anunciámos um cessar-fogo, mas a assinatura do nosso tratado de paz ainda está longe.

27.11.12

Travestismo

Esperas que eu escreva o amor em cor-de-rosa, de preferência em itálico, e se conseguir uma fonte que desenhe bolas em cima da letra "i" melhor.
Se quero o cinzento dizes que sou fria e sombria. Se não me importo com o tipo de letra, não tenho sentido estético. 

Escrevo como um homem, porque não uso maquilhagem nem saltos na escrita. 

(Eu faço amor, tu fodes.)
As meninas bem comportadas não podem dizer asneiras, não podem usar as palavras proibidas e não podem querer foder. A foda na minha primeira pessoa do singular é ordinária. 

Sou um homem maricas.

— E não somos todos?

(Eu fodo, tu fazes amor.)

Deixa lá, não vou dizer nada a ninguém.

19.11.12

Fado

Quis tocar uma música que tinha feito para ti. 
Mi, Lá, Ré, Sol, Si, Mi. (Não percebo, nunca começo pela mais grave.)
Apertei demasiado a última corda e parti-a.
Sem o meu instrumental, tentei remediar ao trautear o primeiro verso, mas desafinei logo na segunda nota. (Era a oitava errada.)
Que merda. Estava condenada ao fracasso. Se nem na música, como no resto?
Resignada, li-te o poema.
Depois de teres tropeçado em várias sílabas, também a tua voz partiu.
Não arrisco mais nas canções.
Nem tu nas palavras.
Somos de espectros diferentes.
Em comum temos apenas uma coisa
(—amor)
a palavra que te faz tropeçar e a nota em que desafino são a mesma.

13.10.12

Frágil

Após largos anos de recusa, tirei o coração da caixa. Ele estava numa prateleira alta, onde quase ninguém chegava. 
Como ficou vulnerável e mais acessível, decidi pôr-lhe uma etiqueta a dizer "frágil".
Um dia, passaste apressado e não o viste. Então, pisaste-o.
Agora, não há coração. A prateleira está vazia e se mais alguém lá chegar não vai encontrar nada.
Não andes tão distraído, nem tão apressado. Ainda sujas os sapatos outra vez. 

23.9.12

Natal

Pareço uma criança que anseia pela véspera de Natal, porque sabe que, quando esse dia chegar, já só vão faltar poucas horas para poder abrir os presentes. Já só faltam dois dias para o meu vinte e quatro de dezembro. Poupa no papel de embrulho. Vai ser tudo para rasgar.

12.9.12

Meta

Sei que não devo contar os dias, mas é só o que consigo fazer. Depois de sonhar contigo, as manhãs são sempre o pior. Já só passaram mais umas horas. O tempo não quer nada com velocidades, mas as saudades estão desde o princípio a ganhar a corrida. E eu? Eu só quero correr para ti. 

4.9.12

Confissão

O teu disco tem estado a tocar. A carta que me deixaste foi lida vezes sem conta. O Turk, o J. D. e o Dr. Cox já me arrancaram umas gargalhadas. Contudo, chorei o dia todo como um bebé. É egoísmo, eu sei.

Dia 1. As saudades já doem.

22.8.12

Religião

Respiro fundo.
— O que foi?
Estou a adormecer no teu peito e dou por mim a pensar que não me importava de ficar assim para sempre. Rapidamente me lembro de que não acredito em para sempres. Mas, mais uma vez, é o medo disfarçado de descrença. Nunca mais fui à missa aos domingos. Forcei o meu ateísmo no amor.
— Nada.
Mentira. Continuo a dizer a minha oração todas as noites antes de adormecer, excepto quando o faço no teu peito. Nessas noites, sou ateia, tal como tu.
Respiras fundo.

15.8.12

Guião

O telefone que não toca. Um silêncio que não se esgota. O choro preso nas mordidas das bochechas. E o nosso fim. Uma e outra vez. O mesmo filme. Aquele que já aconteceu muito antes de ter sido escrito. Nunca disse que te amo, porque quero acreditar que assim dói menos. Nunca disseste que me amas, porque não acreditas no amor. Lá vem o mesmo filme. O mesmo silêncio. E o telefone que continua sem tocar. Tenho as bochechas em sangue. 

31.7.12

Maestro

Chamaste-me e eu soube. A tua voz desceu para os graves. Já só te lia em Clave de Fá. A intensidade do que dizias espelhava-se nos batimentos por minuto da tua respiração. Cada palavra era uma semibreve. Inspiravas em pausas de dois tempos. O teu frasear não oscilava mais do que dois tons e meio. O teu compasso simples. O meu composto. Os meus nervos em falsete. Respirava em stacatto. Se o meu silêncio falasse, escrevia uma partitura inteira só com semifusas. Eu sabia que querias pôr a barra final. E eu só queria que me deixasses escrever uma marca de repetição na pauta. Chamaste-me e eu soube. O maestro foste tu.


(April 13, 2012, 12:42am)


                                                                                                                                                       

Estetoscópio


encosto o meu ouvido ao teu coração

tun tun tun tun

tenho tanto medo de ficar como de ir embora

tun tun

e se vou embora e ele deixa de bater?

tun

e se fico e o sinto parar?


  • (

    May 24, 2012, 4:59pm

    )

  • 27.7.12

    Motor de Busca

    Tentei perguntar de várias maneiras, mas a pesquisa foi sempre inconclusiva. Eu só queria saber como é que sabia se era amor. Advertiram-me: a falha estava nas palavras-chave.

    14.7.12

    Incolor


    Outro dia, tropecei num livro daqueles que estão sempre em promoção no supermercado. Uns que até estão embrulhados em papel cor-de-rosa com brilhantes. São livros que contam histórias sobre o amor. Dizem eles. Eu nunca percebi muito bem o que era isso. Não esses livros baratos, mas o amor. O amor daqueles livros é eterno e cor-de-rosa, tal como o papel onde vêm embrulhados. Mas eu não acredito na eternidade e não gosto de cor-de-rosa. O amor para mim é efémero, tal como nós. E cinzento. O mesmo cinzento da cor teus olhos. 

    13.7.12

    Existencialismo

    Contigo sofro as crises de identidade de um pré-adolescente. Sou uma criança que acha que merece ser tratada como um adulto que sabe que não é.

    11.7.12

    Cuidado

    Às vezes, quase que te chamo amor. Sorte a tua que consigo sempre travar a tempo.

    10.7.12

    Perfume


    Tomo banho, visto-me, ponho perfume. Os pulsos, o pescoço, o cabelo. Saio à rua. Chego, horas depois, a casa. Arrumo a confusão que trouxe lá de fora. Continuo a cheirar a ti. Os pulsos, o pescoço, o cabelo. 

    29.6.12

    O Recado

    Meu amor, está a ficar tarde e a casa voltou a ficar quieta. Tem sido assim nos últimos dias. Não deixo muita luz entrar e faço todos os esforços para que o silêncio se escute. Tenho escrito pouco, tenho ouvido pouca música e também não tenho lido na quantidade que devia. O calor tem-me esgotado. Rendi-me aos benefícios do sono. Enquanto durmo, não penso e o tempo passa mais rápido. Meu amor, a casa está quieta. Está a ficar tarde. Todos dormem menos eu. Agora não consigo fazer com que o tempo passe mais rápido. Agora todos os meus pensamentos são teus. 

    (Quando voltares, não faças muito barulho a abrir a porta, por causa dos vizinhos. E não tropeces no tapete novo que comprei para a entrada. Eu estou à tua espera. À espera do frio que trazes da rua. À espera do teu cheiro. O teu cheiro que enche a casa. A casa que eu já não quero quieta.)

    23.6.12

    Pró-Regime

    Imagino o nosso fim muitas vezes. Há quem lhe chame pessimismo. Eu chamo-lhe precaução. A minha racionalidade é uma ditadura. O meu coração não é revolucionário.

    21.6.12

    Sonho

    Estava escuro e muita gente em volta. Não conseguia traduzir as silhuetas em imagens familiares, Mãe, chamei, mas ela parecia não ouvir. Sentia-me perdida no meio de uma multidão enloquecida por um silêncio constrangedor, Mãe, chamei outra vez, Estou aqui, agora parecia ouvi-la. Longe, estava muito longe, e eu sem conseguir ainda furar a multidão, Aqui onde, perguntei, o som da minha voz ecoava no meio daqueles corpos inertes. Não sabia onde estava, nem porque estava. Estava frio e as pessoas pareciam congeladas, a roupa estava colada à pele, os olhos eram gigantes e iluminavam-se como se fossem holofotes no meio daquele breu. Passava por mais uma e outra, Mãe, aqui onde, dizia agora mais irritada, Despacha-te, e eu desesperada, a empurrar corpos que insistiam em não sair da frente, a lutar contra uma escuridão que me dava ataques de pânico. Eu que me protegia como podia com medo que algum daqueles corpos me tocasse, Estou a perder a paciência, era a voz da minha mãe, mas não a encontrava. Comecei a suar, a respiração acelerou, sentia o coração a chutar o meu peito com força, Mãe, gritava, as luzes acenderam-se, o barulho começou em crescendo, as pessoas começaram a mexer-se, Mãe, e ela ouviu, Vem para a mesa, o almoço está a arrefecer.

    20.6.12

    O Medo


    Serei capaz 
    de não ter medo de nada, 
    nem de algumas palavras juntas?

    (Manuel António Pina)

    Sempre tive muitos medos. O maior de todos é o do amor. O amor não devia nunca estar associado a uma oração condicional. Mas eu ainda não descobri como não ter medo de fazer dele uma simples. Sem coordenações, nem subordinações. Só, amor.

    18.6.12

    Código Passional

    Consultei os melhores advogados, mas nenhum me conseguiu livrar da condenação. Procuraram em todos os livros, passaram a legislação toda a pente fino em busca de alguma alínea que me pudesse salvar. O temível julgamento chegou. Era irremediável: tinha-me perdido ao abrigo de todas as tuas leis. 

    A Origem

    "Tu eras isso. A nossa casa vazia parecia cheia. Depois fechávamos o mundo lá fora. E a nossa casa vazia permanecia cheia só connosco".

    Deve-se o título deste sítio a Rodrigo Guedes de Carvalho, que, em 2005, publicou A Casa Quieta. Tomei a liberdade de me apropriar dele. A justificação está dada.