27.11.12

Travestismo

Esperas que eu escreva o amor em cor-de-rosa, de preferência em itálico, e se conseguir uma fonte que desenhe bolas em cima da letra "i" melhor.
Se quero o cinzento dizes que sou fria e sombria. Se não me importo com o tipo de letra, não tenho sentido estético. 

Escrevo como um homem, porque não uso maquilhagem nem saltos na escrita. 

(Eu faço amor, tu fodes.)
As meninas bem comportadas não podem dizer asneiras, não podem usar as palavras proibidas e não podem querer foder. A foda na minha primeira pessoa do singular é ordinária. 

Sou um homem maricas.

— E não somos todos?

(Eu fodo, tu fazes amor.)

Deixa lá, não vou dizer nada a ninguém.

19.11.12

Fado

Quis tocar uma música que tinha feito para ti. 
Mi, Lá, Ré, Sol, Si, Mi. (Não percebo, nunca começo pela mais grave.)
Apertei demasiado a última corda e parti-a.
Sem o meu instrumental, tentei remediar ao trautear o primeiro verso, mas desafinei logo na segunda nota. (Era a oitava errada.)
Que merda. Estava condenada ao fracasso. Se nem na música, como no resto?
Resignada, li-te o poema.
Depois de teres tropeçado em várias sílabas, também a tua voz partiu.
Não arrisco mais nas canções.
Nem tu nas palavras.
Somos de espectros diferentes.
Em comum temos apenas uma coisa
(—amor)
a palavra que te faz tropeçar e a nota em que desafino são a mesma.