29.6.12

O Recado

Meu amor, está a ficar tarde e a casa voltou a ficar quieta. Tem sido assim nos últimos dias. Não deixo muita luz entrar e faço todos os esforços para que o silêncio se escute. Tenho escrito pouco, tenho ouvido pouca música e também não tenho lido na quantidade que devia. O calor tem-me esgotado. Rendi-me aos benefícios do sono. Enquanto durmo, não penso e o tempo passa mais rápido. Meu amor, a casa está quieta. Está a ficar tarde. Todos dormem menos eu. Agora não consigo fazer com que o tempo passe mais rápido. Agora todos os meus pensamentos são teus. 

(Quando voltares, não faças muito barulho a abrir a porta, por causa dos vizinhos. E não tropeces no tapete novo que comprei para a entrada. Eu estou à tua espera. À espera do frio que trazes da rua. À espera do teu cheiro. O teu cheiro que enche a casa. A casa que eu já não quero quieta.)

23.6.12

Pró-Regime

Imagino o nosso fim muitas vezes. Há quem lhe chame pessimismo. Eu chamo-lhe precaução. A minha racionalidade é uma ditadura. O meu coração não é revolucionário.

21.6.12

Sonho

Estava escuro e muita gente em volta. Não conseguia traduzir as silhuetas em imagens familiares, Mãe, chamei, mas ela parecia não ouvir. Sentia-me perdida no meio de uma multidão enloquecida por um silêncio constrangedor, Mãe, chamei outra vez, Estou aqui, agora parecia ouvi-la. Longe, estava muito longe, e eu sem conseguir ainda furar a multidão, Aqui onde, perguntei, o som da minha voz ecoava no meio daqueles corpos inertes. Não sabia onde estava, nem porque estava. Estava frio e as pessoas pareciam congeladas, a roupa estava colada à pele, os olhos eram gigantes e iluminavam-se como se fossem holofotes no meio daquele breu. Passava por mais uma e outra, Mãe, aqui onde, dizia agora mais irritada, Despacha-te, e eu desesperada, a empurrar corpos que insistiam em não sair da frente, a lutar contra uma escuridão que me dava ataques de pânico. Eu que me protegia como podia com medo que algum daqueles corpos me tocasse, Estou a perder a paciência, era a voz da minha mãe, mas não a encontrava. Comecei a suar, a respiração acelerou, sentia o coração a chutar o meu peito com força, Mãe, gritava, as luzes acenderam-se, o barulho começou em crescendo, as pessoas começaram a mexer-se, Mãe, e ela ouviu, Vem para a mesa, o almoço está a arrefecer.

20.6.12

O Medo


Serei capaz 
de não ter medo de nada, 
nem de algumas palavras juntas?

(Manuel António Pina)

Sempre tive muitos medos. O maior de todos é o do amor. O amor não devia nunca estar associado a uma oração condicional. Mas eu ainda não descobri como não ter medo de fazer dele uma simples. Sem coordenações, nem subordinações. Só, amor.

18.6.12

Código Passional

Consultei os melhores advogados, mas nenhum me conseguiu livrar da condenação. Procuraram em todos os livros, passaram a legislação toda a pente fino em busca de alguma alínea que me pudesse salvar. O temível julgamento chegou. Era irremediável: tinha-me perdido ao abrigo de todas as tuas leis. 

A Origem

"Tu eras isso. A nossa casa vazia parecia cheia. Depois fechávamos o mundo lá fora. E a nossa casa vazia permanecia cheia só connosco".

Deve-se o título deste sítio a Rodrigo Guedes de Carvalho, que, em 2005, publicou A Casa Quieta. Tomei a liberdade de me apropriar dele. A justificação está dada.