Estava escuro e muita gente em volta. Não conseguia traduzir as silhuetas em imagens familiares, Mãe, chamei, mas ela parecia não ouvir. Sentia-me perdida no meio de uma multidão enloquecida por um silêncio constrangedor, Mãe, chamei outra vez, Estou aqui, agora parecia ouvi-la. Longe, estava muito longe, e eu sem conseguir ainda furar a multidão, Aqui onde, perguntei, o som da minha voz ecoava no meio daqueles corpos inertes. Não sabia onde estava, nem porque estava. Estava frio e as pessoas pareciam congeladas, a roupa estava colada à pele, os olhos eram gigantes e iluminavam-se como se fossem holofotes no meio daquele breu. Passava por mais uma e outra, Mãe, aqui onde, dizia agora mais irritada, Despacha-te, e eu desesperada, a empurrar corpos que insistiam em não sair da frente, a lutar contra uma escuridão que me dava ataques de pânico. Eu que me protegia como podia com medo que algum daqueles corpos me tocasse, Estou a perder a paciência, era a voz da minha mãe, mas não a encontrava. Comecei a suar, a respiração acelerou, sentia o coração a chutar o meu peito com força, Mãe, gritava, as luzes acenderam-se, o barulho começou em crescendo, as pessoas começaram a mexer-se, Mãe, e ela ouviu, Vem para a mesa, o almoço está a arrefecer.
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