Foi a noite mais complicada de que tenho memória.
Demasiada gente à minha volta, estímulos profissionais que exigiam resposta, e eu prestes a desabar o tempo todo.
- Aguenta.
Aquela noite de trabalho ia longa e pareceu uma eternidade até chegar, finalmente, o momento em que pude entrar no carro e ficar sozinha.
- Estás livre.
Solucei o tempo todo. O caminho até casa não teve quilómetros suficientes para tudo aquilo que precisava de exorcizar.
Já no quarto, o ritual antigo repetiu-se: porta fechada, luz apagada, cabeça tapada e choro abafado pela almofada até a cabeça doer, até não conseguir respirar.
- Não tinhas dito que já tinhas ultrapassado essa fase?
Ninguém me avisou. Mesmo que o tivessem feito, desconfio de que não teria acreditado que a dor seria tão grande, profunda e demorada.
É que, quando deixam de nos amar, arrancam-nos um pedaço que não sabemos para onde vai, nem quando volta. (Será que volta?). E nós ficamos sem saber como arrancar do peito um amor tão grande, que, apesar de magoado, insiste em manter-se incólume dentro de nós.
- Será sempre uma luta desigual.
(Não tenho fome. Não quero ver nem conversar com ninguém. Não tenho vontade de trabalhar.)
- Não sabia que um coração partido causava tantos estragos.
(Enquanto isso, o mundo continua a girar, e eu tenho de continuar a fingir que quero comer, que quero conversar, rir, e que as obrigações do trabalho continuam a ser estimulantes e não apenas tarefas rotineiras que faço para me distrair.)
"Se quiseres que alguma coisa mude, vais conseguir mudar."
Viver com o coração partido é viver em solidão. Ninguém mais entende que sofrer não é uma escolha, é uma inevitabilidade.
Só aqueles que também já morreram de amor.
Será que temos mais vidas?
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